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Monday, June 14, 2021

SOBRE A MORTE: REFLEXÕES SOBRE O SEXTO CAPÍTULO DA EPÍSTOLA AOS ROMANOS

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus Nosso Senhor” – Romanos 6,23

Há na vida de São Sebastião mártir toda significação e simbolismo tanto da Epístola de S. Paulo Apóstolo aos Romanos como do maior fato empírico da existência que é tratado: a morte. Recusando-se à negar sua fé perante o poderio romano, enfrentando-o com virtude e amor à Verdade, São Sebastião padeceu reprovando às injustiças do Imperador Diocleciano contra os cristãos e contra o verdadeiro sentido de que deixara Cristo em seus ensinamentos e atitudes.

Pois assim dizia S. Paulo “Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.” (Rm 6,10)
De maneira análoga temos no texto das Escrituras em Gálatas 2,20 “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
O caráter universal descrito no texto das Sagradas Escrituras leva-nos a refletir a imensa profundidade que há no significado da morte e o quanto o empirismo moderno ignora todas as causalidades transcendentais da matéria.

Explique-se.

Com o advento das ciências empíricas e a completa separação do ente como um conceito composto tal como era postulado entre os Escolásticos, isto é, sendo a essência predicativa e o ato de ser, para a bifurcação racionalista cartesiana da res cogitans (substância pensante) e da res extensa (substância extensa), reduzindo a realidade da alma eterna para uma mera superstição religiosa e absolutizando o homem-material como uma máquina atomística, as reflexões acerca do fim último da existência humana transformaram-se em mero utilitarismo temporal. Ou seja, o quanto devemos defender uma falsa longevidade material pois o único sentido existencial que há é o conforto e o bem-estar imediato. É evidente que essa forma mentis reduziu o ser humano enquanto ser numa mediocridade sem fim e é necessário, na medida dos esforços de um metafísico sóbrio, resgatar os ensinamentos de S. Paulo Apóstolo para o bem operar da nossa inteligência.

No sexto capítulo da Epístola aos Romanos, temos a possibilidade de voltarmos a olhar para o homem não com a mesquinharia da modernidade (ou da pós-modernidade) no que concerne suas ações enquanto animal racional, dotado de inteligência, vontade e sensibilidade, feito à imagem e tornando-se semelhante de Deus pelos sacramentos, mas em toda sua integralidade e grandeza. De fato a metafísica cristã é a única capaz de analisar, com certa tridimensionalidade, as primeiras e segundas causas da existência humana e seus devidos fins mediante a ciência de uma ordem pré-estabelecida. Ora, quando falamos sobre Ser e existência, vida e morte, é necessário aceitarmos, de fato, uma presença constante e todo um campo de inteligibilidade que decorre dessa presença para que tenhamos o ponto de partida para conhecermos aquilo que esses conceitos são e às percepções na realidade concreta. Se não houvesse uma proporcionalidade na realidade não poderíamos sequer falar a respeito dela, de Deus, dos anjos, dos homens, dos animais, das plantas, dos átomos ou cogitarmos, abstratamente, a matéria prima.

No mesmíssimo instante em que apreendo um ente do mundo real, não posso presumir que apenas o conheci pelos seus dados sensíveis imediatos, senão que, pela própria capacidade da minha inteligência como também da presença do Ser, conheci aquilo que o ente é pela abstração de sua forma substancial e de sua essência. Segue-se, portanto, que toda operação que passa pelos sentidos e pela razão, não pode ser de maneira nenhuma produto de mera extensão da coisa (res extensa), mas de todo um composto inteligível daquilo que a coisa é (essência e ato de ser).

Ora, se a própria operação do intelecto repousa na apreensão no ente como composto e não no ente como dualidade substancial, intuímos que há algo além do dogma materialista que sustenta o que é pensado acerca do fim último do homem, mesclando-o à corrupção corpórea.

Diz-nos S. Paulo “Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus Nosso Senhor” (Rm 6,11).

Toda narrativa deste capítulo repousa no fato de que nossa alma não poderia ser reduzida à corruptibilidade do corpo, mas à incorruptibilidade mesma da alma, por participar da eternidade em Deus.

S. Paulo continua explicando:

“Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

“De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?”

“Ou não sabeis que todos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” (Rm 6: 1,2,3)

O tratado para os sacramentos neste caso é mister. Os sacramentos nada mais são que um modo de participarmos da Graça de Deus e da possibilidade de retornarmos a Ele na bemaventurança. O homem, após o pecado original, deixou de participar de Sua Graça de modo mais perfeito e, pela paixão, morte e ressurreição de Cristo ganhou um novo significado para que não cresse mais que sua Queda é irreversível ou que sua natureza não pode retornar ao encontro da Graça.

No batismo temos a mancha do pecado apagada da nossa alma. Entretanto, carregamos, por conta da culpa do pecado original e da natureza decaída, a possibilidade de retornarmos ao estado pecaminoso – seja ele venial ou mortal. Deus, em sua Infinita Inteligência, estabelece o senso de proporções em nossa inteligência mediante a hierarquia de nossas ações em relação à justiça e à misericórdia. Reestabelecendo, com devida beleza, nosso bom senso. Se não houvesse uma hierarquia de atos, culpas e penas, teríamos uma divindade completamente arbitrária, ciumenta e incapaz de perdoar seus filhos quando sofrem outras quedas. Portanto, no ato de reconciliação com Deus, que temos no sacramento da confissão e da penitência, retornamo-nos ao estado de Graça concedido no batismo para que assim, no ato supremo da Revelação do Logos, possamos participar do sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

“De sorte fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida”

Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;
Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. (Rm 6: 4,5,6)

Alguém dirá que este belíssimo significado não está dotado de um verdadeiro sentido transcendente quanto à finalidade mesma do homem?

Podemos até apelar ao existencialismo cristão como resposta ao panteísmo grosseiro dos últimos séculos. Assim como fazia o filósofo espanhol José Ortega y Gasset ao separar toda sorte de aspectos acidentais da existência humana aos essenciais. Ou até mesmo Viktor Frankl¹ ao postular que o homem não cria sentidos a posteriori, mas os encontra diante de sua presença na realidade. Ou melhor, na adequação e proporcionalidade das duas coisas, encontrando-se, a grosso modo, com o modo de pensar escolástico.

É de ciência que em nossas vidas passaremos por tribulações e aflições “Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Rm 5: 3,4). E é nesta realidade que extraímos uma gnoseologia e uma psicologia de completa autenticidade cristãs. Pois de todo um mal Deus tira um bem, pois o primeiro não existe como substância mas como privação do segundo. Sendo assim, o homem sente-se aflito no pecado e nas dificuldades da vida temporal, mas tem, como caminho real, a essência do bem. Ora, se esse bem fosse algo abstratíssimo, impossível de ser alcançado, ele não poderia ser apreendido e tratado até mesmo em simples raciocínios tendo em vista exemplos cotidianos.

Um homem com uma vontade desviada de sua verdadeira ordem, pode pensar que, ao assaltar um semelhante e atentar-se contra o Sétimo Mandamento, estará fazendo algo necessariamente bom. Em sua razão, pensa este homem que, ao retirar um bem material de seu semelhante, está fazendo um bem a si mesmo. É evidente que isto é uma deturpação, algo corrupto e imoral. Contudo, para o contexto dessa análise, vê-se que até mesmo os pecadores em seus atos, estão em busca do bem substancial mesmo que estejam executando um mal que os priva. Assim como sempre haverá uma ação positiva no que concerne nas nossas operações da alma. Não poderíamos não entender algo sem entender que não entendemos. Assim como não podemos não saber algo se não soubéssemos que não sabemos. Sei que nada sei, dizia Sócrates.

Nessa experimentação das aflições e tribulações, por ser inevitáveis enquanto vivermos temporalmente, apresenta-nos o problema das escolhas. Ilustra-se no magnânimo trecho de Ortega y Gasset em sua Rebelião das Massas²:

“Porque a vida é um verdadeiro caos onde ele está perdido. O homem suspeita disso; mas tem pavor de se encontrar cara a cara com essa realidade terrível, e procura ocultá-la com uma cortina fantasmagórica, onde tudo está muito claro. Não se importa que suas ‘ideias’ não sejam verdadeiras; usa-as como trincheiras para se defender da sua vida, como rompantes para afugentar a realidade.

O homem de cabeça clara é aquele que se liberta dessas ‘ideias’ fantasmagóricas e olha a vida de frente, e assume que tudo é problemático nelas, e se sente perdido. Como isso é a pura verdade – a saber, que viver é se sentir perdido –, aquele que o aceita já começou a se encontrar, já começou a descobrir sua autêntica realidade, já está em terra firme. Instintivamente, como o náufrago, buscará algo a que se agarrar, e essa
busca trágica, peremptória, absolutamente veraz, porque se trata de salvar-se, o fará ordenar o caos de sua vida.

Essas são as únicas ideias verdadeiras: as ideias dos náufragos. O resto é retórica, postura, farsa íntima. Aquele que não se sente verdadeiramente perdido, perde-se inexoravelmente; quer dizer, jamais se encontra, nunca encara a própria realidade.”

Ora, aceitando essa inevitabilidade como real, pois o homem nada seria se não aceitasse a realidade que o transcende mas o abarca, refletimos acerca das escolhas que faremos enquanto partícipes desse plano da realidade. Escolheremos frivolidades ou tomaremos a grandeza de nossa alma como norte de nossas ações? Pois já dizia Santo Agostinho que a sabedoria é a apreensão das realidades eternas. Nosso grandessíssimo Doutor da Graça não diria isso sem saber que vamos muito além da mediocridade, da mesquinharia, da mera materialidade. E que algo em nós persiste o drama da existência pois sustenta-se na Presença Eterna que não está sujeita às mudanças do tempo e do espaço.

Seria este o motivo para que a morte, na Idade Média, por exemplo, não fosse tratada como um drama niilista mas como uma realidade que conforta? Ou como algo que num sentido pode ser tremendamente assustador mas que traz consigo o sentido mesmo do Amor Divino?

O próprio Apóstolo Paulo nos ensina: “porque n’Ele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17,28).

Deus, sendo a Bondade Encarnada, não poderia Ser e não-Ser ao mesmo tempo. Não poderia ter algo n’Ele que não fosse Ele. “Eu sou aquele que Sou” (Êxodo 3). Como dizia Santa Tereza Benedicta da Cruz (Edith Stein), a obra de Deus não tem nem princípio nem fim; subsiste durante toda a Eternidade; é a imutabilidade mesma de seu Ser. Não existe nada em Deus que não seja ato: é actus purus³.

Apenas nós, em nossa mutabilidade e existência, podemos dizer que somos apenas em Deus. Ora, sendo assim, só podemos ser bons enquanto ordenamo-nos às coisas de Deus, mesmo não crendo nelas. O fato de crermos ou não crermos, de orarmos ou não orarmos, de pedirmos ou não pedirmos, de participarmos dos sacramentos ou não, a priori, não muda a essência da realidade tal como ela é. Nós fazemos tais coisas, mesmo enfraquecidos pelo pecado, pois alcançamos o bem por participação, primeiramente, pela ciência da razão natural e, num outro momento, pela iluminação da fé. Pelo encontro, novamente, da natureza com a Graça, da razão com a fé. Uma coisa não anula à outra, mas complementam-se substancialmente. Nesse sentido, os sacramentos passam de ser uma mera crença supersticiosa para a beatitude mesma da razão humana. O quão inteligente uma pessoa pode ser ao participar realmente dos sacramentos e vive-los no cotidiano. O quão inteligente uma pessoa pode ser ao estudar com sincero ascetismo todo misticismo dos sacramentos e seus efeitos na vida dos Santos e dos mártires. O quão inteligente uma pessoa pode ser ao olhar-se a si mesma com a grandeza do Amor de Deus
e buscar o Seu Perdão?

Ora, o problema do perdão e da morte andam lado a lado nesta problemática.

Olavo de Carvalho4 em um texto célebre nos ajuda a compreender:

“Se vocês acompanharam os raciocínios finais do filme “O Jardim das Aflições”, não terão dificuldade de entender o que vou explicar em seguida. Se enfatizo tanto a importância do perdão, não é só porque ele é o centro e o topo da revelação cristã, mas porque meditei personalizadamente o assunto desde um ponto de vista não religioso ou teológico, mas metafísico, e adotei como tese formal da minha filosofia a convicção de
que ele é uma das chaves essenciais da estrutura mesma da realidade como um todo. No filme — assim como em muitas aulas –, expliquei que não há um intermediário entre o ser e o nada: o que quer que tenha entrado na esfera do ser por uma fração infinitesimal de segundo não pode nunca mais retornar ao nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário, pertenceu sempre à esfera do ser. Se tentamos conceber o transcurso do tempo como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a
eternidade, no sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o que quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez para sempre. Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada, nada retorna, porque do nada, nada proveio. Ora, em toda a esfera do acontecer universal, desde as partículas subatômicas até a totalidade das galáxias, e atravessando mesmo todos os mundos supracorpóreos e espirituais que possam existir, só há UM tipo de fato
que, uma vez ocorrido no tempo, pode ser suprimido da eternidade. São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga o pecado do registro do ser. O perdão divino não é somente um castigo suspenso, mas uma anulação do fato, um DESACONTECER total e definitivo. Correlato da criação “ex nihilo”, o perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada. O perdão é obra da liberdade divina e, nesse sentido, transcende a estrutura inteira da possibilidade universal. Quem quer que tenha a oportunidade de participar desse milagre, sob qualquer maneira que seja, deve aproveitá-la ao máximo, porque nada, nada, nada deste mundo lhe dará, na medida das forças humanas, compreensão mais luminosa do mistério da existência.”

Complementemos com os seguintes versículos de S. Paulo:

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.” (Rm 6:13-18)

As ideologias de massa, em completo contraste com a Epístola aos Romanos, preveem um fim último completamente imanente. Em certo sentido, todas elas baseadas na heresia joaquimita das Três Idades históricas. Explique-se brevemente.

O abade cisterciense Joaquim de Fiore, influenciado por certo cabalismo judaico, postulou o simbolismo da Santíssima Trindade reduzindo-o ao milenarismo e ao historicismo. Para o abade, a primeira idade (idade do Pai) simbolizar-se-ia pelo Antigo Testamento. A segunda idade (idade do Filho) pelo Novo Testamento. E a terceira idade (idade do Espírito Santo) pela culminação do amor e do paraíso terrestre. No processo de secularização, as Três Idades cabalísticas de Joaquim de Fiore transformaram-se na proposição mister das ideologias de massa e em todo seu simbolismo trinitário. No comunismo pelas suas três fases (comunismo primitivo, luta de classes e ditadura do proletariado), no nazismo como Terceiro Reino, no liberalismo pela democracia sacra, etc. Nesses processos revolucionários, a Revelação, a Sã Doutrina, os Sacramentos, o perdão de Deus, etc., nada mais são que alienações supersticiosas da mente humana (rescogitans) que devem ser ignoradas para dar espaço à libido dominandi. O que explica nossa existência é a história do poder entre opressores e oprimidos (Foucault) ou a história dos prazeres (Freud). O homem não teria mais o menor sentido em pensar na salvação de sua alma e na beatitude eterna, mas apenas em sentir-se livre das amarras dos dogmas e buscar a felicidade terrena mediante uma militância absolutista ou nos prazeres temporais e sensíveis.

Em outras oportunidades tratei dessa problemática gnóstica das ideologias e dessas reduções satânicas do homem enquanto homem e enquanto criatura de Deus. Neste caso, cabe tratarmos no problema mesmo da morte e em quantas vidas foram ceifadas e ainda o são nessa ilusão causada pela Serpente.

E em como em todas essas proposições Deus é encarado como um deus-mal, o Demiurgo, que nos prendeu na matéria bruta e mente para nós. Ora, se o Ser em Si mente, se a Bondade Suprema mente, não há bem, não há verdade. Pois uma coisa pode ser boa ou má apenas em relação ao sujeito, nunca aos objetos que são apreendidos. Nunca em analogia entis, mas sempre em equivocidade. Logo, a morte só tem sentido de ser quando realizamos nossos desejos e procuramos, na medida do possível diante do sofrimento metafísico, libertar-nos do Demiurgo e alcançarmos, por um conhecimento oculto ou pela tentativa de determinação, nossa partícula divina apreendida na matéria.

Nesse dado momento o leitor faz o gigantesco contraste entre a gnoseologia cristã e o gnosticismo pretendido nas ideologias modernas – seja elas quais forem e como se autodenominam – e os sentidos que dão ao fim último da existência.

De fato o homem padece, diante da morte, de um grande temor e de grandes dúvidas. Em como seria possível libertar-se desse suposto mal ou em como poderia transcende-lo num bem superior que já o abarca. De todos os aspectos acidentais de sua vida poderia se alcançar o essencial eterno. É claro que diante dessa tensão é preciso, praticamente, agarrar-se à solidão dos grandes místicos e aprofundar-se numa reflexão afastada dos braços da natureza e do espaço. Longe de Leviatã e Beemote. É encontrar-se, definitivamente, consigo mesmo e ouvir a voz de Deus em seu interior mediante a prática constante dos sacramentos e da vida de Oração. Confiando em Deus e em mais ninguém para que Ele o modifique, assim como diz S. Paulo:

“Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como
apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.
E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.

Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:19-23)

Entre todas as depressões, anseios, problemas, desilusões, decepções, humilhações e outras corrupções psicológicas da existência, reside em nós, pela nossa própria participação no Amor de Deus, toda a possibilidade de retornarmos a Ele e conhece-lo em Essência na vida eterna. E por mais que o pecado nos degenera, o que Deus pede a nós é que tenhamos a humildade de implorar a Ele o perdão. Pois é este o apelo que fazemos na Santa Missa “Não olheis os nossos pecados mas a fé que a anima a Vossa Igreja”. A fé que a anima o Corpus Mysticum é o reconhecimento da indignidade humana e o apelo humilde por uma Palavra: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só Palavra e serei salvo”.

Retornando a São Sebastião que fora citado logo no primeiro parágrafo, não resta dúvidas de que o Santo, em toda sua batalha contra principados e potestades, reconheceu sua indignidade e confiou nesta Palavra até o fim.

Precisamos sim do perdão e da sabedoria, assim como S. Paulo Apóstolo, assim como precisamos ser mártires do nosso tempo, como fora o grande São Sebastião, que rogue por nós.

São Carlos, 06 de Março de 2021.
Daniel Ferraz.

1 Viktor Frankl – O Sofrimento de uma vida sem sentido;
2 José Ortega y Gasset – A Rebelião das Massas
3 Edith Stein – Ser Finito e Ser Eterno
4 Olavo de Carvalho – Texto retirado sua página no Facebook.

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